Preciosos são os acontecimentos que nos fazem parar
para refletir o valor da vida. Passamos dias e dias preocupados com mínimos
detalhes, minuciosamente buscando razões para justificar nossas falhas,
lamentando-se e reclamando por mais simples que sejam. De repente, uma situação
vem a nos surpreender. Foi o que representantes das turmas do terceiro ano do
ensino médio do Colégio São Carlos, juntamente com a professora Magda, a irmã
Selina, estudantes de Medicina e amigos, presenciaram na quinta feira do dia
22/03/12.
Jean
foi o único filho que sobreviveu ao nascimento prematuro entre as gestações de
sua mãe. Sem recursos médicos devido à distância até o hospital, nasceu com
dificuldades. Sua posição no ventre da mãe era ao contrário do que deveria
estar para a realização de um parto normal. O bebê foi retirado pelas pernas,
fazendo com que sua sensível coluna entortasse. O aperto no pescoço fez com que
tivesse falta de oxigênio, fazendo com que sua coloração ficasse próxima ao
roxo, trazendo malefícios que contribuíram para suas deficiências motoras. Foi
levado ao hospital por seu pai, e, quando encontraram um médico obstetra ou
pediatra, encaminharam-no a uma incubadora, onde residiu durante 90 dias.
Cresceu com os músculos atrofiados, limitações motoras, e sem a possibilidade
de se locomover sem auxilio. O pai faleceu quando completou oito anos. Sua mãe,
batalhadora, cuida-o com muito amor e carinho há nada menos que quarenta e
quatro anos.
Ao
visitá-lo, ele nos surpreendeu. É um rapaz inteligente, bondoso e muito sábio.
Contou-nos grandes histórias, momentos vividos por ele. Jean é alfabetizado,
leu muitas obras didáticas e literárias, usufruiu de telecursos para o
aprimoramento de seu conhecimento, escreveu sua autobiografia e aprendeu a
reconhecer suas limitações, maravilhando-se por poder estar vivo. Durante a
nossa conversa, descobrimos que seu sonho profissional era exercer a Medicina,
preferencialmente nas especializações de ginecologia ou psiquiatria analítica.
Também sonha em publicar seu valioso livro.
Disse-nos que não gostava de ser chamado de deficiente, mas sim de
limitado. Ele não tem pena de si mesmo, tem pena de quem tem pena dele. Sua
teoria é de que todos têm deficiências, sejam visíveis ou não. Podem ser
físicas, mentais, psicológicas, espirituais ou até morais. Ninguém é perfeito,
mas também não deve se lamentar.
Quando
estávamos de saída, Jean deixou-nos uma bela mensagem, agradecendo nossa visita
e ressaltando que espera que a sua existência tenha contribuído positivamente
para nosso aprimoramento educacional. Acredito que todos saíram dali com esta
certeza, comovidos pela situação e maravilhados por sua capacidade intelectual
e sabedoria. Prometemos retornar a visitá-lo, pois percebemos que no momento em
que o ajudamos, acabamos recebendo sua ajuda.
Reconhecemos o valor de estar vivo.

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