domingo, 15 de julho de 2012

Amor pela Vida


               Preciosos são os acontecimentos que nos fazem parar para refletir o valor da vida. Passamos dias e dias preocupados com mínimos detalhes, minuciosamente buscando razões para justificar nossas falhas, lamentando-se e reclamando por mais simples que sejam. De repente, uma situação vem a nos surpreender. Foi o que representantes das turmas do terceiro ano do ensino médio do Colégio São Carlos, juntamente com a professora Magda, a irmã Selina, estudantes de Medicina e amigos, presenciaram na quinta feira do dia 22/03/12.

                Jean foi o único filho que sobreviveu ao nascimento prematuro entre as gestações de sua mãe. Sem recursos médicos devido à distância até o hospital, nasceu com dificuldades. Sua posição no ventre da mãe era ao contrário do que deveria estar para a realização de um parto normal. O bebê foi retirado pelas pernas, fazendo com que sua sensível coluna entortasse. O aperto no pescoço fez com que tivesse falta de oxigênio, fazendo com que sua coloração ficasse próxima ao roxo, trazendo malefícios que contribuíram para suas deficiências motoras. Foi levado ao hospital por seu pai, e, quando encontraram um médico obstetra ou pediatra, encaminharam-no a uma incubadora, onde residiu durante 90 dias. Cresceu com os músculos atrofiados, limitações motoras, e sem a possibilidade de se locomover sem auxilio. O pai faleceu quando completou oito anos. Sua mãe, batalhadora, cuida-o com muito amor e carinho há nada menos que quarenta e quatro anos.

                Ao visitá-lo, ele nos surpreendeu. É um rapaz inteligente, bondoso e muito sábio. Contou-nos grandes histórias, momentos vividos por ele. Jean é alfabetizado, leu muitas obras didáticas e literárias, usufruiu de telecursos para o aprimoramento de seu conhecimento, escreveu sua autobiografia e aprendeu a reconhecer suas limitações, maravilhando-se por poder estar vivo. Durante a nossa conversa, descobrimos que seu sonho profissional era exercer a Medicina, preferencialmente nas especializações de ginecologia ou psiquiatria analítica. Também sonha em publicar seu valioso livro.  Disse-nos que não gostava de ser chamado de deficiente, mas sim de limitado. Ele não tem pena de si mesmo, tem pena de quem tem pena dele. Sua teoria é de que todos têm deficiências, sejam visíveis ou não. Podem ser físicas, mentais, psicológicas, espirituais ou até morais. Ninguém é perfeito, mas também não deve se lamentar.

                Quando estávamos de saída, Jean deixou-nos uma bela mensagem, agradecendo nossa visita e ressaltando que espera que a sua existência tenha contribuído positivamente para nosso aprimoramento educacional. Acredito que todos saíram dali com esta certeza, comovidos pela situação e maravilhados por sua capacidade intelectual e sabedoria. Prometemos retornar a visitá-lo, pois percebemos que no momento em que o ajudamos, acabamos recebendo sua ajuda.  Reconhecemos o valor de estar vivo.

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